Carta
Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas, as mesmas, triviais,embora estremecessem a um toque de paixão.Perfurando os obscuros canais de argila e sombra,ela iria contando que vou bem, e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente,e espero uma resposta,mas que não tarde; e peço um objeto minúsculo só para dar prazer a quem pode ofertá-lo; diria ela do tempo que faz do nosso lado as chuvas já secaram,as crianças estudam,uma última invenção(inda não é perfeita)faz ler nos corações, mas todos esperamos rever-nos bem depressa. Muito depressa, não.Vai-se tornando tempo estranhamente longo à medida que encurta.O que ontem disparava,desbordado alazão,hoje se paralisa em esfinge de mármore,e até o sono, o sono que era grato e era absurdo umé dormir acordado numa planície grave.Rápido é o sonho, apenas,que se vai, de mandar notícias amorosas quando não amor a dar ou receber;quando só há lembrança ainda menos, pó,menos ainda, nada,nada de nada em tudo,em mim mais do que em tudo,e não vale acordar quão acaso repousa na colina sem 🌲.
Contudo, esta é uma carta.
Carlos Drummond de Andrade.
Para quem Gosta de catar milho...
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