segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Cartas Cecília & Mário

Hotel Terminus, 30 de setembro de 1935.

"Mário, Eu não sei si V. me conhece – como se diz no carnaval – mas isso não tem importância nenhuma. Andei há pouco por Portugal e fiz uma propagandazinha da poesia brasileira que deu certos resultados. Um deles foi uma grande simpatia por V. e pelos seus livros; e, em consequência, o pedido que acabo de receber, da parte de Luís de Montalvor (poeta português) que é sobretudo um esteta e um espírito encantador de amigo, para obter alguns inéditos seus – a carta diz “dois, ao menos” – a serem publicados numa revista que por lá vai aparecer com o nome Poesia..."   Cecília Meireles

Cecilia, esteve em vários países e escreveu muitas CARTAS.

" Em Lisboa vão gostar muito, tenho certeza. E eu fico bem contente, porque prometi mundos e fundos do Brasil, disse que tudo aqui era uma maravilha, e quando comecei a tentar provar, com os nossos poetas, as invenções que por lá andei espalhando, não consegui quasi nada, porque todos estão perdidos na burocracia, bocejando de fadiga, sem força para mandarem levar ao correio aquilo por que, no entanto, se salva ainda a sua própria vida – o seu pensamento e a sua emoção..."
(Meireles, 1996, p. 290).

" ... Mário, intransigente, pacifista, internacionalista amador, comunica aos camaradas que bem contravontade, apesar da simpatia dele por todos os homens da terra, dos seus ideais de confraternização universal, atualmente soldado da República, defensor interino do Brasil.
E marcho tempestuoso noturno.
Minha alma cidade das greves sangrentas,
Inferno fogo INFERNO em meu peito,
Insolências blasfêmias bocagens na língua.."
(Meireles, 1996, p. 231

 “Cecília Meireles, minha querida amiga” ."só não digo que V. é um anjo para não o estragar”

"Rosa de cá, rosa de lá – você tem a “Rosa” eu me beneficio da xará – lembrei-me de lhe mandar “Três motivos da Rosa”, que devem sair no meu próximo livro. Justamente, eu queria dedicar a você um poeminha: lembrança da contemporaneidade lírica. E as rosas vêm a propósito, embora seja um caso bem único o de uma mulher oferecer uma rosa a um homem. Acho que é o único, mas minha instrução no assunto tem lacunas consideráveis. Entretanto, é rosa e não é rosa: pois que é apenas poema da rosa. Ora como são três, voilà, Mr., l’embarras du choix. Então, pensei: copio todos, e mando. Você vê qual é o menos pior, e me diz: este fica sendo meu. Eu lhe digo à moda de hoje: O. K. E pronto. Tão simples, a vida!"
(Meireles, 1996, p. 306)

Rosa Cecília Meireles Rosa
"..É preciso  ser cruel. É preciso trair, tomar uma decisão, me empobrecer deste vai-vem sonoro em que vivo desde ontem de manhã. Prefiro o soneto. A decisão é tomada por “outro motivo” – este meu mal secreto por essa forma sublime e tão tênue que tantos males secretos andaram desencaminhando por aí..."
(idem, p. 308)
"Um prurido, um sopro, um aflar leve e profundo de sensibilidade, que se define apensa. Este o maior encanto das líricas metrificadas de Cecília agora. Especialmente das metrificadas. Porque metrifica. Pra ficar mais livre do pensamento, mais livre da necessidade de organizar o moto lírico num juízo..." Resposta do Mário.
(p. 315)
"Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo..." 
Mas que Mário?
(p. 145)

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