terça-feira, 26 de novembro de 2019

*Para: Um Morto

À  Sepultura de Dom Fernando de Castro


Debaixo desta pedra está metido, 
das sanguinosas armas descansado,
o capitão ilustre, assinalado,
Dom Fernando de Castro esclarecido.

Por todo o Oriente tão temido,
e da enveja da fama tão cantado,
este, pois, só agora sepultado,
está aqui já em terra convertido.

Alegra-te, ó gloriosa Lusitânia,
por este Viriato que criaste,
e chora-o, perdido, eternamente.

Exemplo toma nisto de Dardânia,
que, se a Roma co ele aniquilaste,
nem por isso Cartago está contente.
Luis de Camões
Do Theo Castro 
 Parente do Dom João de Castro

* O Poeta escreve até carta para Morto

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Uma Carta de 1664

Carta Para:

O Governador Pedroso de

de Mello, acerca do papel sei lado.

Vejo o que V. Sa. me escreve em carta de
11 de Junho próximo acerca do papel sellado, e dinheiro que delle resulta nessa Capitania.
O mesmo  inconvenienteque V. Sa. aponta se padece aqui.
Impossível é rubricar o Chanceller o que é necessario para todo o Estado.
E por esta causa, se manda aqui vender sem rubrica, por um assento que se fez que resultou um Alvará que mandei a todas Capitanias do Estado.
Depois se dispoz que se vendesse preferindo sempre (por evitar suspender-
se o curso dos negócios na falta de papel da eracorrente) o da mais antiga, para que successivamente se vá gastando sem embaraços.
A El-Rei meu Sr tenho dado conta desta matéria..."
                   Conde Óbido



De: Mário Quintana

Extraterrena

Para Cecília Meireles
Nós colhíamos flores de hastes muito longas
E cujos nomes nem ao menos conhecíamos…
E nem sequer, também, sabíamos os nossos nomes…
E para quê, se um para o outro éramos Tu, apenas…
Ou quem sabe se a Morte nos houvera bordado
numa tapeçaria
A que o vento emprestasse a vida por um momento?
E por isso os nossos gestos eram ondulantes como as
plantas marinhas
E as nossas palavras como asas suspensas no vento…"   

"... Foi a Cecília Meireles, ela era muito bonita, todo mundo era apaixonado por ela, todos nós. Ela era muito minha amiga, foi quem publicou meus sonetos e poemas lá no Rio”. 

 “Eu acho que a Cecília Meireles é a maior poeta brasileira da primeira metade do século, porque para nós outros, para disfarçar um pudor de sentimentalismo, a gente se refugia no humor, e ela nunca. Ela sempre foi poeta puro..."


A Resposta: 
Quintanhares
O Natal foi diferente
porque o Menino Jesus
disse à Senhora de Sant’Ana:
“Vovozinha, eu já não gosto
das canções de antigamente:
cante as do Mario Quintana!
Viram-se então os anjinhos
de livro aberto nas mãos
deslizar no ouro dos ares.
Estudaram nova solfa
pelos celestes caminhos
e ensaiaram quintanares.
Deixaram cair os versos
que já sabiam de cor
pelos telhados das casas.
E o milagre das cantigas
foi que até seres perversos
amanheceram com Asas..."
Cecilia Meireles



Cartas Cecília & Mário

Hotel Terminus, 30 de setembro de 1935.

"Mário, Eu não sei si V. me conhece – como se diz no carnaval – mas isso não tem importância nenhuma. Andei há pouco por Portugal e fiz uma propagandazinha da poesia brasileira que deu certos resultados. Um deles foi uma grande simpatia por V. e pelos seus livros; e, em consequência, o pedido que acabo de receber, da parte de Luís de Montalvor (poeta português) que é sobretudo um esteta e um espírito encantador de amigo, para obter alguns inéditos seus – a carta diz “dois, ao menos” – a serem publicados numa revista que por lá vai aparecer com o nome Poesia..."   Cecília Meireles

Cecilia, esteve em vários países e escreveu muitas CARTAS.

" Em Lisboa vão gostar muito, tenho certeza. E eu fico bem contente, porque prometi mundos e fundos do Brasil, disse que tudo aqui era uma maravilha, e quando comecei a tentar provar, com os nossos poetas, as invenções que por lá andei espalhando, não consegui quasi nada, porque todos estão perdidos na burocracia, bocejando de fadiga, sem força para mandarem levar ao correio aquilo por que, no entanto, se salva ainda a sua própria vida – o seu pensamento e a sua emoção..."
(Meireles, 1996, p. 290).

" ... Mário, intransigente, pacifista, internacionalista amador, comunica aos camaradas que bem contravontade, apesar da simpatia dele por todos os homens da terra, dos seus ideais de confraternização universal, atualmente soldado da República, defensor interino do Brasil.
E marcho tempestuoso noturno.
Minha alma cidade das greves sangrentas,
Inferno fogo INFERNO em meu peito,
Insolências blasfêmias bocagens na língua.."
(Meireles, 1996, p. 231

 “Cecília Meireles, minha querida amiga” ."só não digo que V. é um anjo para não o estragar”

"Rosa de cá, rosa de lá – você tem a “Rosa” eu me beneficio da xará – lembrei-me de lhe mandar “Três motivos da Rosa”, que devem sair no meu próximo livro. Justamente, eu queria dedicar a você um poeminha: lembrança da contemporaneidade lírica. E as rosas vêm a propósito, embora seja um caso bem único o de uma mulher oferecer uma rosa a um homem. Acho que é o único, mas minha instrução no assunto tem lacunas consideráveis. Entretanto, é rosa e não é rosa: pois que é apenas poema da rosa. Ora como são três, voilà, Mr., l’embarras du choix. Então, pensei: copio todos, e mando. Você vê qual é o menos pior, e me diz: este fica sendo meu. Eu lhe digo à moda de hoje: O. K. E pronto. Tão simples, a vida!"
(Meireles, 1996, p. 306)

Rosa Cecília Meireles Rosa
"..É preciso  ser cruel. É preciso trair, tomar uma decisão, me empobrecer deste vai-vem sonoro em que vivo desde ontem de manhã. Prefiro o soneto. A decisão é tomada por “outro motivo” – este meu mal secreto por essa forma sublime e tão tênue que tantos males secretos andaram desencaminhando por aí..."
(idem, p. 308)
"Um prurido, um sopro, um aflar leve e profundo de sensibilidade, que se define apensa. Este o maior encanto das líricas metrificadas de Cecília agora. Especialmente das metrificadas. Porque metrifica. Pra ficar mais livre do pensamento, mais livre da necessidade de organizar o moto lírico num juízo..." Resposta do Mário.
(p. 315)
"Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo..." 
Mas que Mário?
(p. 145)

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Quero uma Carta do meu Amor


QUERO é uma Carta de Amor?

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.
Carlos Drummond de Andrade





Veja também

Uma das Cartas do Poeta *C.D.A.

Carta

Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas, as mesmas, triviais,embora estremecessem a  um toque de paixão.Perfurando os obscuros canais de argila e sombra,ela iria contando que vou bem, e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente,e espero uma resposta,mas que não tarde; e peço um objeto minúsculo só para dar prazer a quem pode ofertá-lo; diria ela do tempo que faz do nosso lado as chuvas já secaram,as crianças estudam,uma última invenção(inda não é perfeita)faz ler nos corações, mas todos esperamos rever-nos bem depressa. Muito depressa, não.Vai-se tornando tempo estranhamente  longo à medida que encurta.O que ontem disparava,desbordado alazão,hoje se paralisa em esfinge de mármore,e até o sono, o sono que era grato e era absurdo umé dormir acordado numa planície grave.Rápido é o sonho, apenas,que se vai, de mandar notícias amorosas quando  não amor a dar ou receber;quando só há lembrança ainda menos, pó,menos ainda, nada,nada de nada em tudo,em mim mais do que em tudo,e não vale acordar quão acaso repousa na colina sem 🌲.

Contudo, esta é uma carta.
Carlos Drummond de Andrade. 
 Para quem Gosta de catar milho...

*Psico-Grafada para Um Jovem Ator


*Rio Fênix

Eu gostava de vc.
Não bebia,
Não fumava,
Não usava pochete.
E tinha uma blusa xadrez.
Eu assisti seus filmes.
Eu ouvi sua banda. 
Eu li o livro que vc falou. 
Eu tinha um álbum gigante,
Com os dez mais.
Vc era em deles.
Vc era um deles,* River?
O primeiro vegan que conheci.
O que é Vegan?
Vagetariano em inglês.
Ahhhh!
Eu poderia ter ** Ficado com vc.
Mas vc era amigo do Jonny.
You Know,
Eu & Jonny.
Jonny & Me and elas.
Por isso, minha bike chamave_se Penélope.
Ouvi por aí: 
River Fênix morreu.
O Bichinho?
Um holliudiano magrinho, provavelmente tinha AIDS.
Morreu virgem.
Na calçada, em frente daquela balada.
O Bar do Jonny.
SPEED BALL.
Fruschiante!
Dia 31 de Outubro de 1993.
Deixou todo MUNDO,
Every Bar...
Mau, mal our Bad.
Odeio quem não envelhece com os irmãos, os amigos.
O Jonny Deep está vivinho da Silva,
E nunca mentiu para mim.
"-E a Penélope?"
Fundo do Rio,
Seu Hippie de merda.
I Hat you!
Ou Eu tiro o chapéu para você.
** Ficado : Gíria dos anos Noventa.
*River Phoenix ou River Button (in Memorian) é um ator Vegano.Em Hollywood pregava contra às drogas, as bebidas, os Idólatras, mas adorava o Almodóvar.
River era amigo do Flea.
Roaquim é o irmão mais novo do Fênix.
O Clã cantava e atuava em diversas línguas.
*Uma Carta a um Jovem Ator é o nome da música do Milton Nascimento para Phoenix.   

Eu e o kenue Reeves (Virginiano) ainda não nos recuperamos dessa morte.